“IDEOLOGIA DE GÊNERO”: UMA AMEAÇA A NOSSAS CRIANÇAS E JOVENS OU UMA FALÁCIA?

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São diversas as denúncias que circulam nas redes sociais e entre pessoas evangélicas sobre uma “ideologia de gênero” que supostamente estaria sendo ensinada nas escolas e ameaçando nossas crianças e jovens. Sob essa expressão, professoras e professores sofrem acusações das mais variadas, que envolvem desde o ensino sobre a diversidade de configurações familiares, até o estímulo à sexualização precoce de crianças, à sua mudança de sexo e à sua transformação em homossexuais. No entanto, é necessário distinguir o que é divulgado como “ideologia de gênero” do que de fato se propõe nas escolas quando se pensa no trabalho com gênero e sexualidade – expressões que, por sua vez, não são a mesma coisa.

Gênero diz respeito às diversas características e funções atribuídas socialmente a mulheres e homens e ao próprio modo como mulheres e homens vivem e ressignificam esses padrões. Isso, por sua vez, é mutável de acordo com a cultura, com o contexto e até mesmo com o modo como cada pessoa vive feminilidades e masculinidades. Um exemplo: o fato de que mulheres, num passado bem recente em nossas sociedades ocidentais, eram consideradas como naturalmente incapazes para a participação na vida política não impediu que diversas mulheres lutassem por esse direito. Hoje – ainda que, infelizmente, com limites, e depois de mais de um século de luta organizada – essa norma tem caído por terra.  

Assim, quando transgredimos a norma, estamos também criando novos significados para o que é ser mulher e homem. Como professora, estudiosa da educação e cristã, entendo que devemos ressignificar e questionar as normas de gênero, na medida em que limitam e oprimem certos grupos e quem escapa delas. Trabalhar com gênero nas escolas, assim, não é “destruir a [suposta] identidade sexual das crianças”, como muito se divulga, mas sim desconstruir a ideia de que mulheres devem ser assim e homens devem ser assado. Trabalhar com gênero nas escolas é multiplicar as possibilidades de vida de nossas crianças e jovens.

Sexualidade, por sua vez, diz respeito ao modo como dirigimos nossos desejos e o trabalho com a temática nas escolas pode gerar especial amedrontamento por parte da população evangélica. Porém, primeiramente, é necessário reiterar que as crianças são, sim, seres com a sexualidade desenvolvida. Isso não significa dizer que são homossexuais ou heterossexuais, mas sim que já experimentam sua sexualidade de diversas maneiras desde pequenas, ainda que não da mesma forma que pessoas adultas.

Assim, na escola, não estamos estimulando uma suposta sexualização precoce, mas estudamos e compreendemos os modos como as crianças vivem a sexualidade. Crianças pequenas se estimulam onde encontram prazer. Compreendemos isso como algo normal e trabalhamos a partir disso, em parceria com as famílias, distinguindo o que é socialmente adequado ou inadequado.

Uma dimensão importante da sexualidade a ser trabalhada no ambiente escolar com crianças e jovens é a prevenção e o combate ao abuso. Há que se compreender que muitas delas e deles são abusadas/os dentro de casa, por alguém da família, e a identificação e o combate a essa prática precisam ser ensinados desde os primeiros anos da escolarização.

Por fim, outro aspecto do trabalho no campo da sexualidade que gera bastante polêmica é o que diz respeito às diferentes configurações familiares. A família composta por um homem, uma mulher e filhos não é a realidade da maior parte das famílias das crianças e jovens em idade escolar. Muitas delas e deles vivem com uma mãe, com uma mãe e avó, com uma família extensa e temos diversas crianças que possuem dois pais ou duas mães. Junto a isso, vários de nossas/os educandas/os dirigem seus desejos a pessoas do mesmo sexo. A obrigação da escola, assim, é combater qualquer discriminação a pessoas que se orientam de modo diferente da heterossexualidade e promover esses modos de vida como legítimos. Há que se lembrar que o Brasil possui índices absurdos de violência grupos LGBTI+ e é nosso dever combatê-la.

Por tudo isso, a ideia de que existiria uma “ideologia de gênero” que estaria sendo ensinada nas escolas é uma falácia. Discutir gênero e sexualidade no ambiente escolar é algo de importância ímpar, uma vez que somos permeadas e permeados por essas importantes dimensões da vida humana e por todos os seus aspectos que, em nossa cultura, ainda oprimem muita gente. Promover o ensino e debate sobre essas questões não é ideologia, é engajar-se na formação cidadã, política e ética de nossas educandas e educandos. Se eu não o fizesse, como seguidora de Jesus que sou, estaria indo na contramão de seu reino, que é de justiça, paz e alegria.

Paula Myrrha Ferreira Lança – mestre em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais e graduada em Pedagogia pela mesma universidade. Professora na Educação Infantil.

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